GUAJARÁ-MIRIM Rondônia

"Causos e Crônicas do Berço do Madeira e da Pérola do Mamoré": O veterinário sabichão e o sitiante tarimbado

Saimon Santos

José Clemente foi sitiante a vida inteira, residindo sempre às margens do Rio Madeira, lá pelas bandas de Vila Murtinho. Entre seus inúmeros animais domésticos, o prestimoso sitiante também criava umas vaquinhas leiteiras, que pastavam as gramíneas que floresciam nas várzeas do rio ou nos arredores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. 

Quando as vacas adoeciam, José Clemente se valia com muita habilidade e maestria dos tradicionais saberes da medicina popular e preparava as famosas garrafadas com extrato de plantas medicinais misturados ao vinho, ou qualquer outro diluente, atacando as enfermidades bovinas com doses cavalares destas beberagens. 

Do alto de sua sabedoria popular, o sitiante era capaz de detectar a enfermidade que acometia seus animais e relacionar imediatamente com a planta capaz de curá-lo. Em muitos casos, a essência medicinal mais utilizada e que crescia abundantemente às margens da ferrovia era o melão-de-são-caetano, com suas flores amareladas em formato de cone e sementes avermelhadas que exalavam um cheiro adocicado de merda e atraíam todos os insetos da região. 

Certo dia, pela manhã, ao chegar no curral para ordenhar as vaquinhas, José Clemente observou que Pretinha continuava deitada, mesmo após os insistentes gritos e inúmeras cipoadas na região das ancas. Após um exame atento, verificou que ela estava com a pelagem arrepiada e os olhos remelentos infestados de abelhas e piuns. Após ordenhar as demais vaquinhas, José Clemente preparou a primeira das inúmeras garrafadas que o animal ingeriria nas próximas horas, sem qualquer efeito esperado. Ela continuava definhando a olhos vistos, apresentando já uma magreza excessiva e cadavérica. 

O sorridente veterinário aproximou-se com cuidado do animal enfermo, e com uma precisão cirúrgica e milimétrica afirmou categoricamente que ele sofrera um ataque fulminante de vermes e carrapatos, o que seria capaz de levá-lo à morte em poucos dias, caso não fosse urgente e adequadamente medicado. 

Faceiro e ostentando seus frescos conhecimentos veterinários, o jovem médico retirou de sua maleta um frasco de medicamento ainda lacrado e puxou com uma imensa agulha todo o líquido do seu interior. A seringa com mais de um palmo de comprimento e grossa como uma pilha, repleta de um líquido escuro, semelhante ao iodo, foi introduzida pacientemente na anca magra do animal. 

Após quase dez minutos de aplicação, o animal revirou os olhos, escoiceou algumas vezes e tentou soltar um mugido, deixando o veterinário eufórico e aliviado, pois aquele era justamente o primeiro atendimento que fazia no povoado do Berço do Madeira. Após injetar todo o medicamento no animal, Capistrano iniciou os procedimentos de retirada da agulha, grossa como um arame farpado. Naquele momento observou que a vaquinha ficou estática, os olhos esbugalhados, arquejando. Por fim, soltou o último mugido, caminhou placidamente em direção às vastas e apetitosas planícies do paraíso das vacas. 

José Clemente que observara todo o meticuloso procedimento do veterinário ficou atônito, pasmo, boquiaberto. Não acreditava na cena que acabara de testemunhar. Com sangue nos olhos e a boca seca berrou para o estarrecido veterinário: “Se era para matar, eu mesmo teria matado a vaquinha, “seu animal”! Pelo menos eu não teria que pagar sua visita e esse medicamento, muito pior que as minhas gororobas”. 

O veterinário que chegara tentando impressionar o camponês usando termos e palavras anfíbias, agora envergonhado e sem saber o que responder, deixou o local pensando em voltar para os bancos da universidade e iniciar uma pós-graduação, cujo trabalho de conclusão haveria de ser: “Os benefícios das garrafadas na recuperação de bovinos prostrados e vacas atoladas”. 

Autor: Simon O. dos Santos – Membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL, e autor dos livros: Trem das Almas (2020) e Causos e Crônicas do Berço do Madeira (2022).

*O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Mamoré não tem responsabilidade legal pela "opinião", que é exclusiva do autor.







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