Coluna Almanaque: DEPOIS DO CAOS, O INFERNO...

Por Fábio Marques


 Por Fábio Marques

O poeta não tinha porra nenhuma na vida. Quem o conhecia de perto era sabedor que além de seu emprego num órgão estatal e de um ou outro biscate ganhando uma comissão com mediação de aluguéis de imóveis, não possuía carro último tipo nem casa comprada com dinheiro suspeito. Em suma, não tinha vergonha do dinheiro que de maneira honesta ganhava. Mas muito embora não tivesse porra nenhuma na vida, ainda tinha para compensar seus braços abertos e seu coração também.
Todos os dias passava pelo mercado e falava com um monte de gente sem se importar se o conheciam ou não. Às vezes alguma senhora ficava assustada ao ser saudada pelo seu bom dia que chegava até questionar: “Quem será este cidadão?”. Poderiam lhe chamar de qualquer coisa. Jesus Cristo, Barrabás, Átila, Genghis Khan. Mas ainda preferia que lhe chamassem pelo seu nome de batismo. Jurava que jamais iria se emputecer.
Piloto com vasto trânsito na estrada da dor, rápido se adaptava às porradas da vida. Por muitos anos sua humilde cabana esteve de portas abertas para a mentira, a hipocrisia e a falsidade. Atendia aqueles cujas intenções era somente lhe prejudicar sem saber que não fazia outra coisa a não ser desfilar no meio de víboras. E os bacanas estavam lá sorrindo, bebendo e comendo churrascos, peixadas, buchadas e feijoadas que o poeta se comprazia em preparar e servir-lhes.
Mas agora é que são elas. Estava mais uma vez tentando se recriar. O homem diante do mundo. E seu mundo era pequeno. Se resumia ao seu seleto grupo de amigos, à sua jornada diária entre o trabalho, a passagem pelo mercado, o boteco da esquina no final da tarde e sua quitinete onde escrevia matérias e artigos para os sites da cidade, ouvia música, cantava e também chorava de vez em quando. Este era o seu pequeno mundo aonde se sentia livre, mesmo que livre-preso. Mas mesmo que livre-preso ainda se achava em melhor posição que muitos presos-livres.
Mobiliou seu espaço apenas com uma mesa de trabalho, uma estante com livros de pesquisa, centenas de revistas e coisas que reviviam momentos especiais. Sua quitinete era sua caverna. Lógico que nos últimos tempos, sem brucutus e outros maus caracteres que tivera o azar de conhecer durante os anos em que praticou o esporte de vencer na vida e que um dia tiveram a honra de desfrutar de sua companhia.
Pouca coisa o irritava nos últimos tempos. E uma destas coisas era a lágrima que escorria pelos seus olhos, prova cabal de que ainda não havia se tornado um ignorante em potencial. Mas ainda que vivesse entre tormentos e angústias, achava que apenas assim poderia se apresentar sem nenhuma vergonha à sua poesia, à sua crônica e à sua própria paz interior.
Às vezes também tinha precisão de alguns traquejos para acalmar seus nervos e procurar afastar fantasmas que apareciam para lhe torturar. Assim prosseguia sua vida, tentando sempre através do absurdo, conquistar o absurdo.
*O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Mamoré não tem responsabilidade legal pela "opinião", que é exclusiva do autor.

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