Culinária, ciclismo, solidariedade sul-americana e o verde fazem de Guajará-Mirim um município diferente

É o único dos 52 municípios que decreta tradicionalmente feriado o dia 6 de agosto, data da Independência do Estado Plurinacional da Bolívia.
Por Monstezuma Cruz
O município de Guajará-Mirim de Rondônia, a 330 quilômetros de Porto Velho, que completou 92 anos, no último sábado (10), possui um diferencial até na solidariedade sul-americana com a Bolívia. Um incêndio que ocorre do lado de lá, quem socorre são os bombeiros brasileiros de cá. Safras agrícolas de Guayaramerín (Beni) para exportação entram pelo rio Mamoré, são registradas pela Receita Federal e chegam ao porto organizado do rio Madeira, na Capital. Tudo gira em função de Guajará-Mirim (46 mil habitantes).
Antiga possessão mato-grossense, Guajará-Mirim foi instalado em 1929, ano do crack* da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Contudo, nunca se deixou abater pela má sorte norte-americana e sua gente nem se surpreendeu tanto, embora tenha reivindicado, quando o ex-presidente José Sarney o incluiu entre as Áreas de Livre Comércio no País.
Do rio Mamoré, em Guajará, até o rio Madeira, em Porto Velho, circulam cargas de exportação dos bolivianos,  informa Glenda Hara, coordenadora de comércio exterior na Superintendência Estadual de Desenvolvimento Econômico e Infraestrutura (Sedi). Conforme a Sedi e a Sociedade de Portos e Hidrovias de Rondônia (Soph), a Bolívia exportou R$ 17,2 milhões de óleo; R$ 8,3 milhões de arroz semibranqueado, polido. O Estado que mais compra daquele país é o Rio de Janeiro: alhos frescos ou refrigerados, por exemplo, que totalizaram negócios de R$ 34,2 milhões no ano de 2020; depois, para São Paulo, R$ 14,3 milhões no mesmo período. Os bolivianos vendem ainda para o Distrito Federal, Mato Grosso, Acre, Espírito Santo e Minas Gerais.
“Nem tudo vem para o porto, mas a economia boliviana é pujante”, reconhece Glenda Hara. Todas as mercadorias exportadas via porto de Guajará-Mirim saem pelas rodovias 425 e 364 e pelo porto organizado de Porto Velho.
“Olha o açaí! Olha o açaí geladinho! Pan, empanada y tortilla!”. Se você ouviu estes gritos no meio de uma tarde modorrenta, certamente está em Guajará-Mirim, lembram os jornalistas Alexandre Badra e Ana Maria Mejia, filhos da terra. Alexandre Badra, não se cansa de comentar sobre os encantos turísticos regionais, entre eles, a secular festa do Divino e o Boi-Bumbá, quando tem.
Guajará-Mirim é um termo oriundo da língua tupi: significa cachoeira pequena, mas há controvérsias de vários linguistas.
Com ruas e avenidas planas, a cidade facilita e convida as pessoas a andarem de bicicleta. Tem até provas anuais de ciclismo promovidas pelo Corpo de Bombeiros Militar de Rondônia.
Para participar é preciso estar equipamento com acessórios, além da bicicleta especial, fabricadas em Rondônia e Paraná, para as trilhas. Em Guajará-Mirim, por ser área de livre comércio o valor é bem abaixo que em outros estados brasileiros.
No verde da Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto, famílias de antigos seringueiros ainda extraem látex e cultivam babaçu, que entre outras utilidades, serve também para gerar energia elétrica.
Ali, mulheres se dedicam à produção de sabonetes coloridos artesanais e os homens produzem botas e saias de borracha que já foram enviadas para Alemanha. A pesca amadora, liberada na época logo após a desova dos peixes, é outra grande atração. As belas praias do rio Pacaás Novos e a Serra dos Pacaás Novos são espetaculares e chama a atenção de turistas.
No distrito de Surpresa, onde existe farta produção de melancias vendidas na feira de Guajará, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade preserva o Parque Nacional da Serra da Cutia. Com área de 216,5 mil hectares, o Parque Estadual de Guajará-Mirim faz parte desse imenso cenário verde. Criado com uma área original de 258 hectares, ele perdeu 53,6 mil ha devido a títulos definitivos de propriedade da terra.
BOA CULINÁRIA
A professora Olga Mejia Brasil, ex-diretora da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Simon Bolívar, elogia a culinária local. “Temos temos a venda de saltenha em diversos pontos pela cidade, só no Centro são três”, ela informa. Segundo a professora, as saltenhas bolivianas são muito procuradas na cidade. “Para mim são as melhores, porque são as mais fiéis à receita dos bolivianos.
“As receitas variam um pouco, umas mais apimentadas, outras com maior quantidade de outros condimentos, entre eles, o cominho,  e inovaram também no recheio:  frango e camarão, mas todas  se remetem à da Bolívia”, explica a professora.
A professora, fã da culinária local, destaca o tacacá produzido na cidade. “O nosso  é feito com um tucupi com sabor inimitável, não é azedo e dele fazemos excelentes pratos, desde peixe a galinha caipira até a rabada no tucupi.
Tacacá é um prato típico de origem indígena da região amazônica. Tucupi é o sumo amarelo extraído da raiz da mandioca brava quando descascada, ralada e espremida.
Mesmo com essa riqueza alimentícia, Olga Brasil, que aguarda o retorno da maior festa da cidade, o Duelo na fronteira (competição anual dos bois-bumbás vermelho e azul), lamenta o momento vivido pelo município. “Lamentavelmente hoje, estamos carentes de cultura, e eu costumo dizer que Guajará vive uma lastimável depressão coletiva; mas o Soberano Deus nos dará forças para continuar”.
A renda per capita de Guajará é R$ 18,2 mil, segundo o IBGE. Outros números do censo mais recente feito pelo instituto: 150 toneladas anuais de arroz em casca; 27 t de feijão; 675 t de milho; uma tonelada de amendoim.
IRMANDADE COM A HOMÔNIMA
Quis a história que as duas cidades separadas pelo rio Mamoré tivessem o mesmo nome: Guajará-Mirim e Guayaramerín, ambas amazônicas. Numa placa do outro lado do rio Mamoré, em Guayaramerín (Beni), estava escrito, quatro décadas atrás: El mar nos pertence por derecho, recuperarlo es um deber.
Esse slogan denota que o povo boliviano tem direito ao mar, porém, ainda não se desenhou uma doutrina geopolítica capaz de direcionar a essa conquista, por outros meios. A história indica que a ocupação militar chilena do porto de Antofagasta em 14 de fevereiro de 1879 foi o início da Guerra do Pacífico. Sem mar, 133 anos depois, bolivianos do Beni (Amazônia Boliviana) se valem do porto organizado de Porto Velho para exportar seus produtos por embarcações que navegam pelo rio Madeira.
Na Superintendência Estadual de Desenvolvimento Econômico e Infraestrutura (Sedi), a rota fluvial entre Porto Velho e Manaus se revela superior (para os bolivianos) à rota para os portos de Arica no Chile, e de Ilo e Matarani, no Peru.
* A Quinta-feira Negra (em inglês, Black Thursday refere-se ao dia 24 de outubro de 1929, quando ocorreu o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque. O crash desencadeou a mais devastadora crise econômica da história dos Estados Unidos, considerando-se a abrangência e a duração dos seus efeitos. Marca o início dos 12 anos da Grande Depressão, que afetou todos os países ocidentais industrializados.

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