Coluna Almanaque: A CRÍTICA DA RAZÃO LÓGICA

Por Fábio Marques


 Por Fábio Marques

Em toda sua vida o poeta jamais se preocupou com bens materiais. Era de seu costume afirmar que seu único bem era a mulher com quem estava casado. E com todas tivera os mesmos reclames: bebia demais, chorava demais, sofria demais, amava demais. Aí também já é demais.

Ignorado pela elite da cidade, de repente começou a insultar os donos do capital em seus artigos. Morava numa quitinete com espaço para caber sua escrivaninha, sua estante com seus livros, sua geladeira, micro-ondas e banheiro com divisão entre toalete e chuveiro. Era um cara bom de coração, honesto consigo e com todos os que dividiam sua amizade.
Uma vez namorou a esposa de um metido a grã-fino que desconfiou do romance passando em seguida a ignorá-lo nos encontros sociais talvez para ver se o poeta percebia que não estava bem vindo ao ambiente. Certa ocasião, tamanha foi a falta de cortesia do cidadão que o escriba chegou a ventilar a hipótese de comentar ao público presente a cor dos pentelhos da esposa do corno. Como era um cara de bom coração preferiu se retirar do recinto. Ora! Há mais justiça e perfeição no mundo quando os poetas comem as mulheres dos ricos e metidos.
Nos últimos tempos resolveu se entregar a solidão de sua quitinete entre livros diversos e músicas de seu gosto muito sui generis para aquela cidade. A solidão o protegia do mundo e do que os patifes faziam com o mundo. Na solidão de sua quitinete escrevia, bebia cerveja, cantava e chorava.
Não tinha a simpatia de alguns membros da cidade em que morava por não acreditar no Deus de suas religiões. Acreditava em Deus sim. Mas seu Deus tinha mais a ver com números de prótons, nêutrons e elétrons do que com pais-nossos e ave-marias. Seu Deus tinha mais a ver com átomos e moléculas do que com igrejas de malandros que se travestem de pastores para roubarem o dinheiro dos pobres ingênuos através do abuso da fé alheia.
Tinha o maior orgulho de nunca ter que se corromper pelas convenções sociais. Não tinha porra nenhuma na vida e tinha orgulho disso. Era um bom ser humano. Maus eram os arranjos sociais.
Seu chefe imediato, Sérgio Bueno, gostava de seu estilo e companhia. De vez em quando lhe chamava para viajar juntos para a cidade de Cais Antigo, metrópole mais próxima. Uma vez em Cais Antigo, sua distração consistia em andar horas e horas pelas avenidas e visitar as livrarias. Nestas andanças, aqui e acolá topava com um cachorro e também com seres humanos do dia-a-dia que sabia que nunca mais tornaria a avistá-los. Mesmo assim estas figuras e imagens ficavam com o poeta.
No início de uma tarde de calor infernal em Cais Antigo o poeta resolveu se refrescar com umas Bohemias numa conveniência de um posto de gasolina na Avenida Kennedy. Ficava perto do apartamento onde pousava e defronte ao supermercado Irmãos Gonzalez.
Da conveniência escreveu a crônica de hoje.
*O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Mamoré não tem responsabilidade legal pela "opinião", que é exclusiva do autor.

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